Vejam o tanto de sotaques diferentes que existem por aqui (e nos States também). O vídeo foi certificado por ingleses locais como fidedigno aos sotaques daqui.
É dose pra entender os sotaques, seja ao vivo, seja na TV...
E eu tenho que agradecer porque eu não estou na Escócia, que é pior do que o que aparece no vídeo...
PS: Foi minha calma e tranquila irmã quem me forneceu este precioso material, portanto muito obrigado a ela por todos os seus esforços em prol do meu entretenimento e bem-estar aqui.
Este é um blog que relata os acontecimentos e as opiniões de um estudante de Doutorado Sanduíche durante sua estadia em Bristol, Inglaterra.
Espero poder ajudar quem pretende passar parte de sua pós-graduação no exterior e também quem pensa em estudar ou mesmo conhecer a Inglaterra. E, é claro, manter meus amigos e familiares atualizados das minhas experiências por aqui.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
domingo, 14 de novembro de 2010
Jantar à moda inglesa
Na última quinta-feira tive a oportunidade de ter um jantar tipicamente inglês, numa casa tipicamente inglesa com ingleses típicos.
O problema é que eu não conhecia nem a casa, nem o menu, nem as pessoas com quem jantaria.
A Universidade de Bristol tem uma associação vinculada a ela que é responsável pela recepção aos estudantes internacionais. Eles organizam eventos cujo objetivo é integrar o estudante estrangeiro na comunidade britânica e fazê-lo se sentir menos sozinho. E eles têm um programa de "intercâmbio" entre alunos estrangeiros e famílias britânicas interessadas em "adotar" um estudante durante o ano letivo. E havia uma família particularmente interessada em estudantes que falassem português. A dona da associação perguntou se eu toparia ser "adotado" por essa família. E eu topei.
Daí na quinta passada me preparei para encontrá-la. Ou eu teria um belo jantar ou seria vítima de um sequestro bastante bizarro... O pai veio me buscar aqui em casa e me levou até a casa da família. Na frente, uma placa (em inglês): Bem-vindos à casa dos...
Simpsons, pois é...
Enfim, lá cheguei e fui recepcionado pela esposa de Homer (quer dizer, Dave...), Heidi. E pela sua mãe, Andree (sim, BIZARRO). E também pelos três filhos, o mais velho Harry (6 anos) e as meninas pequenas Charli (4 anos) e Grace (2). Configuração idêntica à dos Simpsons...
Bom, ainda bem que eu até gosto de crianças, porque para quem não gosta entrar na casa dos Simpsons seria como entrar no inferno. Aquela barulheira, criança subindo na cadeira, fazendo bagunça, destruindo o grampeador... E os pais coitados tentando manejar a situação e ao mesmo tempo falar comigo.
Depois do jantar insosso (coitado do Jamie Oliver, a comida inglesa bem que podia ser mais gostosa né?), hora da sobremesa. Eu, educadamente, esperaria que todos se servissem para começar a comer. Paspalho... A Lisa (Charlie) do nada grita no meu ouvido: EAT IT NOW!!!!!! OK, sim senhor capitão! Comecei a comer no próprio impulso do susto... e a menininha se divertia comigo lá...
Hora de dormir para as crianças. Elas estavam doidas para me mostrar o quarto delas e suas camas. O menininho dormia em cima na beliche e tinha feito até uma cabaninha para ler à noite sem atrapalhar as irmãs. O Harry desenhou um Science Man na sua parede. E o pai fez questão de dizer que eu era um Science Man... daí o menino perguntou para mim o que eu fazia... Tricky question... Respondi que eu era aqueles caras que misturavam líquidos e faziam eles mudarem de cor e sair fumaça. Ele adorou! E a mãe disse que eu fazia coquetéis...
Depois da leitura das historinhas, eles dormem e os adultos descem para conversar na sala. Eu pensei: finalmente falaria português! Paspalho (desculpa Thiago, mas gostei da palavra!). Eles tinham morado 6 meses em Lisboa e sabiam falar algumas palavras apenas. E eu não estava a fim de ser professor, portanto nem insisti muito. O máximo que falei foi com as crianças quando elas aprenderam a falar "Boa noite". E elas falaram no mínimo uns 30 boa noites cada...
De resto, tomei chá com os adultos falando sobre trivialidades ao lado da lareira. Foi divertido falar com adultos ingleses numa casa tipicamente inglesa. Nada demais, mas ajudou a quebrar a rotina.
Vamos ver o que minha família inglesa tem reservado para mim no próximo encontro...
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Manchester - Parte 2
O museu da Ciência e Indústria é a melhor coisa que vi em Manchester. Mas a cidade tem outras coisas interessantes, dentre elas o motivo real de eu ter me deslocado da minha casinha para esta longínqua cidade no norte do país.
Biblioteca Central de Manchester
Estátua da rainha Vitória, que governou esta birosca por trocentas décadas, a época de ouro da Inglaterra, coincidindo com o período da Revolução Industrial (adivinhe porque ela é uma divindade por lá)
Região dos prédios e negócios
Mas a principal razão da minha ida lá foi pra ir ao Old Trafford, estádio do Manchester United. E poder ver um jogo da Premier League, primeira divisão do campeonato inglês.
Antes, contudo, paradinha para me abastecer com o tradicional Fish 'n' chips, peixe com fritas, prato típico daqui:
Chegando ao estádio, impressiona a organização e limpeza (tanto quanto Derby, mas aqui tinha muito mais gente). Sentei no meu lugarzinho (virei uma daquelas cabecinhas brancas com casacos escuros que a gente vê na torcida quando assiste campeonato europeu na TV) e esperei pelo jogo.
Vinte minutos antes do jogo o estádio estava assim:
E 20 minutos depois estava assim:
Exatamente 75.272 pessoas estavam lá. O maior público que já vi. E era só um jogo de sexta rodada, contra um time pequeno (West Bromwich Albion). E não podia começar melhor para o time da casa: 5 minutos Hernandéz fez 1x0, vinte minutos depois Nani 2x0. Show do "maior do mundo", como o locutor oficial do estádio falava. Rooney, Scholes, Ferdinand, Evrá etc. estavam jogando muito. E no intervalo a torcida cantava o hino a plenos pulmões:
However, já diria o filósofo, futebol é uma caixinha de surpresas. Escanteio e quem é que sobe? Goool do West Brom. Cinco minutos depois Van der Sar falha clamorosamente e gooolll do West Brom! Eu mais feliz que qualquer um ao meu redor, pois odeio o Manchester United. E ainda mais por causa de uma mulher tosca que ficava pronunciando o D no final do United com tanto gosto que me dava vontade de passar a tesoura na língua... O jogo ainda teve um lance emocionante no final quando o juiz tentou ajudar o UniteD dando uma falta dentro da área:
Com o resultado, a mesma torcida que gritava "(...) glory glory Man United and the Reds go marching on on on" teve que ir para casa ouvindo da torcida do West Brom: "(...) and the Reds go marching home home home"...
P.S.: Para os preguiçosos, 419 palavras só... =P
Biblioteca Central de Manchester
Estátua da rainha Vitória, que governou esta birosca por trocentas décadas, a época de ouro da Inglaterra, coincidindo com o período da Revolução Industrial (adivinhe porque ela é uma divindade por lá)
Região dos prédios e negócios
Mas a principal razão da minha ida lá foi pra ir ao Old Trafford, estádio do Manchester United. E poder ver um jogo da Premier League, primeira divisão do campeonato inglês.
Antes, contudo, paradinha para me abastecer com o tradicional Fish 'n' chips, peixe com fritas, prato típico daqui:
Chegando ao estádio, impressiona a organização e limpeza (tanto quanto Derby, mas aqui tinha muito mais gente). Sentei no meu lugarzinho (virei uma daquelas cabecinhas brancas com casacos escuros que a gente vê na torcida quando assiste campeonato europeu na TV) e esperei pelo jogo.
Vinte minutos antes do jogo o estádio estava assim:
E 20 minutos depois estava assim:
Exatamente 75.272 pessoas estavam lá. O maior público que já vi. E era só um jogo de sexta rodada, contra um time pequeno (West Bromwich Albion). E não podia começar melhor para o time da casa: 5 minutos Hernandéz fez 1x0, vinte minutos depois Nani 2x0. Show do "maior do mundo", como o locutor oficial do estádio falava. Rooney, Scholes, Ferdinand, Evrá etc. estavam jogando muito. E no intervalo a torcida cantava o hino a plenos pulmões:
However, já diria o filósofo, futebol é uma caixinha de surpresas. Escanteio e quem é que sobe? Goool do West Brom. Cinco minutos depois Van der Sar falha clamorosamente e gooolll do West Brom! Eu mais feliz que qualquer um ao meu redor, pois odeio o Manchester United. E ainda mais por causa de uma mulher tosca que ficava pronunciando o D no final do United com tanto gosto que me dava vontade de passar a tesoura na língua... O jogo ainda teve um lance emocionante no final quando o juiz tentou ajudar o UniteD dando uma falta dentro da área:
Com o resultado, a mesma torcida que gritava "(...) glory glory Man United and the Reds go marching on on on" teve que ir para casa ouvindo da torcida do West Brom: "(...) and the Reds go marching home home home"...
P.S.: Para os preguiçosos, 419 palavras só... =P
sábado, 6 de novembro de 2010
Pequeno factóide cômico
Estava eu ontem no banheiro masculino do Departamento de Física, após o almoço, escovando meus dentes. Eis que entra Tim, um cara lá do laboratório. Ao passar pela parede e chegar à região das pias, Tim me vê. Instantaneamente ele se assusta como se tivesse visto o próprio demônio, produzindo inclusive um ruído audível. E aí ele começa a rir. Eu pergunto:
- O quê foi?
- (Ele continua rindo)
- O quê foi????
- Não é nada, é que você está escovando os dentes.
- Sim, depois de todas as refeições, incluindo o almoço, eu escovo os dentes.
- Faz sentido.
- E por que você se assustou?
- É que eu não esperava ver isso quando entrei no banheiro, nunca vi ninguém escovando os dentes nos banheiros aqui da Física.
Detalhe: Tim estuda aqui desde a graduação e vai concluir o doutorado esse ano, portanto frequenta os banheiros da Física há pelo menos oito anos.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Visto II
Aproveitando a grande (e inesperada) popularidade do meu primeiro post sobre o visto britânico para alunos de doutorado sanduíche (veja-o aqui - incluindo os comentários), a Daisy se propôs a contar a história dela e poder com isso ajudar quem quer vir para o Reino Unido.
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Com intuito de ajudar outras pessoas que vão tirar o visto na categoria "Academic Visitor", escrevo a minha experiência para o blog do André.
Minha batalha começou antes mesmo de tentar o visto. Primeiro, tive que realizar o TOEFL. A nota mínima que a CAPES exige é 80 pontos. Beleza, fiz e consegui mais que 80 pontos. Depois, crente que já tinha contemplado todos os requisitos da CAPES, descobri que eu teria que qualificar. Isso, 2 semanas antes do prazo da inscrição da internet no site da CAPES (16 de junho). Beleza de novo, consegui qualificar. Daí, começou a espera pela resposta da bolsa de doutorado sanduíche que poderia sair até o dia 30 de setembro. Eis que um belo dia de agosto, bem antes do prazo final, vejo no site que meu processo foi aprovado. Felicidades e mais felicidades.
E agora?! Consegui a bolsa. Agora, eu teria que correr atrás dele, sim, do VISTO. Naquele momento, eu não sabia exatamente a qual categoria deveria aplicar. Eu achava que seria o Tier 4 e avisei ao meu orientador que eu deveria ter um número, o CAS, para eu poder entrar com o pedido de VISTO. Meu orientador pediu esse número para o adviser da Escócia. O mesmo disse que a categoria de VISTO que eu deveria aplicar não era o Tier 4, pois eu não iria pagar nenhum "fee" para ficar na Universidade, e sim o famoso "Academic Visitor". Mudei totalmente minha estratégia. Pesquisei no site do ukborder todos os documentos necessários para aplicar nessa categoria. Descobri que eu não iria pagar mais de 500 reais para aplicar para o VISTO de "Academic Visitor" e sim 194 reais. Fiquei feliz! E fiquei mais feliz ainda, quando buscando pela internet, descobri o site do André e toda a história que ele passou para conseguir o tal VISTO. Pensei "Nossa, irei com a documentação correta, então, não terei problemas." Segui e me precavi em relação ao que o André havia relatado sobre a discrepância entre a denominação que as agências de formento CAPES e CNPq têm em relação a categoria de VISTO que nós alunos de doutorado devemos aplicar para o Reino Unido. A CAPES nos denomina de "Visiting Graduate Student".
Já com todos os documentos na mão. Marquei minha passagem para o Rio de Janeiro para o dia 8 de setembro de 2010, já que no outro dia, eu iria ao prédio da WorldBridge na praia do Botafogo entregar toda a documentação e tirar os dados biométricos. Depois de entregue os documentos, veio a tensão! No site do WorldBridge tem o tempo estimado para a tomada de decisão pelo consulado britânico do Rio (5 dias). Esperei 12 dias para chegada do VISTO com resultado. Abro o SEDEX e me deparo com um documento informando que minha entrada no Reino Unido foi negada! O documento "Refusal of Entry Clearence". A razão: Mesmo sendo aceita na University of St. Andrews, eu não havia enviado documentos suficientes indicando que eu trabalho em uma Universidade no Brasil ou que eu trabalho na área do meu conhecimento.
Tristeza. Fui imediatamente no site saber o que eu poderia fazer para reverter essa situação. Não me deram direito do apelo (sei que o resultado do apelo demora meses, então, não adiantava), como também não me deram direito a revisão administrativa. Cheguei a enviar ao Worldbridge um pedido de revisão administrativa, mas recebi um e-mail dizendo que eu não tinha esse direito, mas somente o direito tentar tirar o VISTO de novo.
Diante da recusa e da repulsa imediata aos britânicos, pensei em não tentar novamente, mas com a cabeça fria e conversando posteriormente com meu orientador, resolvi tentar. O que eu iria perder tentando de novo? Bem, mais um gasto com viagem e agora, paga-se 200 reais para aplicar para o VISTO para categoria "Academic Visitor". Um imprevisto. Eu não conseguia agendar minha "entrevista", pois o número de meu formulário estava errado. Simplesmente, aparecia o número "GWF" do formulário anterior. Mandei um e-mail para o Worlbridge relatando meu problema e eles me mandam um e-mail informando como deveria proceder, mesmo assim, não consegui alterar o número. Num outro e-mail, eles me mandaram uma informação errada dizendo que eu poderia agendar mesmo com o número de formulário diferente. Fui checar isso no site da ukborder e descobri que uma das exigências é que o aplicante deve se certificar que o número do formulário é o mesmo quando tu agendas no site da worldbridge. Diante da informação errada, tive que pagar 12 doláres para ligar para o serviço da Worldbridge e tentar agendar pelo telefone e foi isso que ocorreu. Paguei para agendar minha "entrevista".
Entrevista agendada para o dia 15 de outubro de 2010, juntei todos os documentos que descrevi nos comentários do tópico sobre VISTO que o André escreveu e viajei para entregá-los. Mais calma (1 hora antes de viajar, eu ainda estava imprimindo minhas declarações), fui no prédio da Worldbridge e tudo aconteceu como manda o figurino, entrega documentos, tira os dados biométricos, paga pelo SEDEX, vai embora e espera ansiosa pelo resultado.
O resultado veio pelo e-mail. Fiquei tão nervosa que não acreditava que era verdade. My VISA has been issued. Mandei o e-mail para o André para ter certeza mesmo! Depois do "É isso mesmo" do André fiquei mais aliviada. Mas, mesmo assim sem meu passaporte carimbado, certinho, não estava comemorando por completo. Numa quarta-feira, recebi o SEDEX com o passaporte carimbado. Tudo certo, categoria, validade. Me deram também "multiply entry". E finalmente, pude comemorar por ter vencido essa batalha.
Ufa, cansada da batalha, mas disposta a enfrentar mais. Posso dizer que ainda penso no pôrque que eles negaram na primeira vez, sendo que na segunda foi muito mais rápido a análise e a resposta. Não posso dizer qual foi o fator determinante para conseguir o VISTO. Mas, por precaução mesmo, melhor pecar pelo excesso e enviar todos os documentos que tens para provar todos os itens que eles exigem para categoria. Porque, Ô povo para encrencar com os outros!!!! No entanto, mexeram com o povo que não desiste nunca! ;)
Daisy
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Manchester - Parte 1
Das duas uma: ou eu não tenho a menor capacidade de resumir ou então realmente os meus passeios produzem tanta coisa para contar que eu tenho que dividi-los em dois posts.
Com Manchester não foi diferente. Manchester é uma cidade que fica no norte da Inglaterra, bem longinho de Bristol (bem mais longe do que Londres). É uma das mais importantes cidades do país, mas já teve importância maior tanto no cenário inglês como no cenário mundial.

Vou dividir os posts de maneira não-cronológica desta vez. Agora vou contar um pouco da história de Manchester e como isso pode ser apreciado por quem visita a cidade. Portanto, apertem os cintos.

Manchester é famosa principalmente por uma razão: no século XIX a cidade foi o maior pólo industrial do planeta, pois suas fábricas foram decisivas para transformar a Inglaterra na primeira e principal potência da época, liderando a chamada Revolução Industrial. Mas o que foi mesmo a Revolução Industrial?
A Revolução Industrial, que todos nós estudamos no colégio, foi o momento da história em que as ferramentas manuais passaram a ser substituídas pela máquina. Até então as indústrias eram todas manuais e em geral tinham produções em pequena escala. O que possibilitou esta mudança foi, em resumo, a chegada da energia a vapor. Movidas pelo carvão, máquinas a vapor de todos os tamanhos permitiram uma produção muito maior e mais rápida. Isto causou uma mudança enorme na produção de bens de todos os tipos, geração de empregos, surgimento de novas e poderosas indústrias e lucros. Ao mesmo tempo trouxe grandes mudanças sociais, novos costumes, necessidade de deslocar pessoas de áreas rurais para as cidades, de forma a atender a demanda de mão de obra. Era como se a vida das pessoas tivesse virado de cabeça para baixo, ou como se uma autêntica revolução tivesse acontecido. Nada mais natural então, que este momento passasse a ser conhecido daí para a frente como "Revolução Industrial". Infelizmente, junto com o desenvolvimento por ela trazido, veio também a exploração desumana dos trabalhadores, em um mundo onde ainda não havia leis trabalhistas para protegê-los. A Inglaterra foi o pais precursor da Revolução Industrial. Suas minas de carvão, o bem estruturado sistema de transporte deste mineral através de canais, bem como sua excelente rede ferroviária, deram aos ingleses a dianteira neste novo mundo movido a vapor. E cidades como Manchester tiveram uma participação decisiva naquele momento, que foi o início do período áureo da Inglaterra.
Ok, ok, chega de aula. Vamos ver como o turista bobão aqui pôde de fato vivenciar a Revolução Industrial nas alamedas de tijolos vermelhos de Manchester.
A cidade tem um bairro quase inteiro no estilo do século XIX. Só andar pelo bairro já é como andar num museu a céu aberto. Ele chama-se Castlefield e fica relativamente perto do centro da cidade. Dentro dele encontra-se talvez a maior atração de Manchester, o MOSI, Museu da Ciência e Indústria. Os próprios prédios do museu (são 5) ficam em antigas fábricas de verdade da cidade. E eu acho que já disse isso aqui, mas repito: inglês sabe fazer museu. E tudo de graça.


O primeiro prédio que entrei era o dos motores e energia. Motores propulsionados por vento e água foram trocados pelos propulsionados pelo vapor gerado a partir da queima do carvão. Ser um engenheiro nessa época na Inglaterra deveria ser muito divertido, pois cada motor era construído para uma determinada função. E lá os monitores botam os motores para funcionar, então todo mundo pode ver como a energia é produzida a partir da queima de umas pedrinhas. Para quem nunca viu ou para quem não sabe como funciona um motor, como as crianças, deve ser uma descoberta fascinante. Um dos maiores motores aqui era o que propulsionava a Ponte de Londres a içar para os navios passarem.

Em seguida fui ao prédio do transporte e das comunicações. A revolução dos motores acabou levando ao desenvolvimento de sistemas de transporte mais rápidos e eficientes, trazendo a população do campo para a cidade. Daí vieram os trens e suas locomotivas a vapor. E depois os veículos movidos a motores de combustão. E mais tarde os primeiros aviões. E com as pessoas mais longe umas das outras e os negócios aumentando, desenvolveu-se a telecomunicação, a fotografia e a imprensa. Tudo retratado fielmente por máquinas da época.

O terceiro prédio pra mim foi o mais sensacional. É o prédio das fábricas e equipamentos. Sabe o que é ver um tecido de algodão sendo feito na sua frente, passo a passo, desde o algodão sujo vindo das plantações, tudo com máquinas do século XIX? Eu achei o máximo. Eles têm apresentações diárias (que duram 1 hora cada mais ou menos) onde eles mostram como as máquinas realmente operavam, usando equipamentos originais da época. Tem algodão e papel, duas das principais indústrias da cidade. Naquela hora estavam apresentando a de algodão. Interessante que Manchester era conhecida como Cottonopolis (ou cidade do algodão) em função do assombroso número de fábricas como aquela que existiam na cidade, tornando-a por muitas décadas o principal pólo têxtil do globo. O algodão primeiro é limpo, depois separado em função dos tamanhos, depois os de mesmo tamanho são agrupados, depois juntados para formar fios mais grossos, depois enrolados para dar resistência aos fios, depois enrolados ainda mais para dar mais resistência, depois entrelaçados para dar o padrão de tecido, e finalmente cortados na forma de tecidos úteis para venda. Cada etapa dessa têm uma máquina especial, todas funcionando com energia a vapor. O barulho é ensurdecedor (isso porque era 1 máquina, imaginem centenas juntas dentro de um mesmo prédio). Crianças a partir de 5 anos trabalhavam embaixo das máquinas em cantinhos onde ninguém podia chegar. Mulheres faziam trabalhos mais leves (como aspirar um dos instrumentos para enovelar o algodão) e os homens os que exigiam mais força (como puxar as prensas dos teares). Todos ficavam surdos, com os pulmões cheios de poeira, sem um braço ou perna cortados pela máquina, mas tudo em nome da produção, sem direitos trabalhistas.


O quarto prédio foi outro genial. Talvez não tanto quanto o anterior porque muita coisa que eu vi lá eu já conhecia ou sabia como funcionava. É o prédio da Ciência. Manchester virou uma cidade riquíssima, atraindo gente e negócios, e consequentemente cultura e conhecimento. Professores e cientistas de várias áreas vieram para a cidade para fazer seus estudos, pois lá havia dinheiro para montar uma boa estrutura e equipamentos. A maioria foi trabalhar na Universidade de Manchester, que virou uma das mais renomadas do mundo, mantendo seu prestígio até hoje (foi de lá que saiu o Nobel de Física desse ano, a descoberta do grafeno). Destaco três cientistas muito bem retratados lá:
- Joule (lê-se Jú, ou então o Teng te morde!) foi um físico que descobriu que o calor é uma forma de energia, não um fluido conhecido como calórico. Essa descoberta só foi possível devido à criação e construção de equipamentos precisos de medição de temperatura, que sem o dinheiro gerado por Manchester não seria possível. Essa descoberta levou em última análise à Primeira Lei da Termodinâmica, a lei da conservação da energia. Sem essa Lei a ciência como conhecemos hoje simplesmente não existiria.
- Dalton foi um inglês especializado em não ser especialista em nada. Era um cientista completo, por assim dizer. Sabe o daltonismo, síndrome de pessoas que não distinguem as cores? Foi Dalton quem descobriu (ele próprio era daltônico). Sabe a chuva? Foi ele que explicou que ela advém de uma mudança de temperatura, não de pressão atmosférica. Mas suas mais famosas pesquisas foram no campo da Física e da Química. Foi ele quem disse que a matéria é constituída de átomos, bolinhas indivisíveis que compõe tudo que existe (antigamente pensava-se que a matéria poderia ser dividida quantas vezes se quisesse). Isso foi uma descoberta absolutamente brilhante e que revolucionou os estudos em Química. Deu origem aos conceitos de elemento químico, massa atômica, reação química. Além disso, algumas das mais importantes leis que governam o comportamento dos gases foram elaboradas por Dalton. E os equipamentos e notas de laboratório de Dalton lá expostos no museu. Pode parecer tosco, mas juro que arrepiei. Ah, com tudo isso ele nunca teve tempo para se casar...


- Rutherford foi o cara que basicamente disse que Dalton estava errado. Seus estudos vieram quase 100 anos depois dos de Dalton, portanto equipamentos e conhecimentos disponíveis foram muito superiores aos disponíveis quando Dalton propôs a teoria atômica. Na verdade, muito do que Dalton propôs estava certo, mas suas afirmações sobre o átomo ser uma esfera neutra, rígida e indivisível estavam erradas. Mas como que alguém conseguiu provar isso se até hoje não é possível ver como o átomo é por dentro? Em função de pesquisas paralelas de gente como Maxwell e Einstein sobre estrutura da radiação e da luz, Rutherford fez um testezinho bacana passando um feixe de partículas alfa (de carga positiva) por uma chapa fininha de ouro, ele verificou que o feixe se desviava ou era rebatido quando batia na chapa de ouro. Ora pois, se o átomo é indivisível e não tem carga, como isso é possível? Isso o levou à formulação do modelo atômico de Rutherford (que até hoje é o mais conhecido popularmente), com um núcleo pequenininho de partículas positivas (prótons) rodeado por elétrons ainda menores orbitando loucamente ao redor do núcleo e cheio de espaço vazio. Esse modelo foi outro passo gigantesco para a verdadeira compreensão de como é matéria é feita. E imagine eu, químico que sou, diante da famosa chapa de ouro de Rutherford. Fiquei na sala dele quase meia hora (e quase sozinho).



Enfim, acho que deu para vcs terem uma boa ideia do porquê Manchester se tornou o centro de produção de bens e conhecimento que transformaram o mundo para sempre, para o padrão de vida que hoje vivemos.
Classe dispensada!
Com Manchester não foi diferente. Manchester é uma cidade que fica no norte da Inglaterra, bem longinho de Bristol (bem mais longe do que Londres). É uma das mais importantes cidades do país, mas já teve importância maior tanto no cenário inglês como no cenário mundial.
Vou dividir os posts de maneira não-cronológica desta vez. Agora vou contar um pouco da história de Manchester e como isso pode ser apreciado por quem visita a cidade. Portanto, apertem os cintos.

Manchester é famosa principalmente por uma razão: no século XIX a cidade foi o maior pólo industrial do planeta, pois suas fábricas foram decisivas para transformar a Inglaterra na primeira e principal potência da época, liderando a chamada Revolução Industrial. Mas o que foi mesmo a Revolução Industrial?
A Revolução Industrial, que todos nós estudamos no colégio, foi o momento da história em que as ferramentas manuais passaram a ser substituídas pela máquina. Até então as indústrias eram todas manuais e em geral tinham produções em pequena escala. O que possibilitou esta mudança foi, em resumo, a chegada da energia a vapor. Movidas pelo carvão, máquinas a vapor de todos os tamanhos permitiram uma produção muito maior e mais rápida. Isto causou uma mudança enorme na produção de bens de todos os tipos, geração de empregos, surgimento de novas e poderosas indústrias e lucros. Ao mesmo tempo trouxe grandes mudanças sociais, novos costumes, necessidade de deslocar pessoas de áreas rurais para as cidades, de forma a atender a demanda de mão de obra. Era como se a vida das pessoas tivesse virado de cabeça para baixo, ou como se uma autêntica revolução tivesse acontecido. Nada mais natural então, que este momento passasse a ser conhecido daí para a frente como "Revolução Industrial". Infelizmente, junto com o desenvolvimento por ela trazido, veio também a exploração desumana dos trabalhadores, em um mundo onde ainda não havia leis trabalhistas para protegê-los. A Inglaterra foi o pais precursor da Revolução Industrial. Suas minas de carvão, o bem estruturado sistema de transporte deste mineral através de canais, bem como sua excelente rede ferroviária, deram aos ingleses a dianteira neste novo mundo movido a vapor. E cidades como Manchester tiveram uma participação decisiva naquele momento, que foi o início do período áureo da Inglaterra.
Ok, ok, chega de aula. Vamos ver como o turista bobão aqui pôde de fato vivenciar a Revolução Industrial nas alamedas de tijolos vermelhos de Manchester.
A cidade tem um bairro quase inteiro no estilo do século XIX. Só andar pelo bairro já é como andar num museu a céu aberto. Ele chama-se Castlefield e fica relativamente perto do centro da cidade. Dentro dele encontra-se talvez a maior atração de Manchester, o MOSI, Museu da Ciência e Indústria. Os próprios prédios do museu (são 5) ficam em antigas fábricas de verdade da cidade. E eu acho que já disse isso aqui, mas repito: inglês sabe fazer museu. E tudo de graça.
O primeiro prédio que entrei era o dos motores e energia. Motores propulsionados por vento e água foram trocados pelos propulsionados pelo vapor gerado a partir da queima do carvão. Ser um engenheiro nessa época na Inglaterra deveria ser muito divertido, pois cada motor era construído para uma determinada função. E lá os monitores botam os motores para funcionar, então todo mundo pode ver como a energia é produzida a partir da queima de umas pedrinhas. Para quem nunca viu ou para quem não sabe como funciona um motor, como as crianças, deve ser uma descoberta fascinante. Um dos maiores motores aqui era o que propulsionava a Ponte de Londres a içar para os navios passarem.
Em seguida fui ao prédio do transporte e das comunicações. A revolução dos motores acabou levando ao desenvolvimento de sistemas de transporte mais rápidos e eficientes, trazendo a população do campo para a cidade. Daí vieram os trens e suas locomotivas a vapor. E depois os veículos movidos a motores de combustão. E mais tarde os primeiros aviões. E com as pessoas mais longe umas das outras e os negócios aumentando, desenvolveu-se a telecomunicação, a fotografia e a imprensa. Tudo retratado fielmente por máquinas da época.
O terceiro prédio pra mim foi o mais sensacional. É o prédio das fábricas e equipamentos. Sabe o que é ver um tecido de algodão sendo feito na sua frente, passo a passo, desde o algodão sujo vindo das plantações, tudo com máquinas do século XIX? Eu achei o máximo. Eles têm apresentações diárias (que duram 1 hora cada mais ou menos) onde eles mostram como as máquinas realmente operavam, usando equipamentos originais da época. Tem algodão e papel, duas das principais indústrias da cidade. Naquela hora estavam apresentando a de algodão. Interessante que Manchester era conhecida como Cottonopolis (ou cidade do algodão) em função do assombroso número de fábricas como aquela que existiam na cidade, tornando-a por muitas décadas o principal pólo têxtil do globo. O algodão primeiro é limpo, depois separado em função dos tamanhos, depois os de mesmo tamanho são agrupados, depois juntados para formar fios mais grossos, depois enrolados para dar resistência aos fios, depois enrolados ainda mais para dar mais resistência, depois entrelaçados para dar o padrão de tecido, e finalmente cortados na forma de tecidos úteis para venda. Cada etapa dessa têm uma máquina especial, todas funcionando com energia a vapor. O barulho é ensurdecedor (isso porque era 1 máquina, imaginem centenas juntas dentro de um mesmo prédio). Crianças a partir de 5 anos trabalhavam embaixo das máquinas em cantinhos onde ninguém podia chegar. Mulheres faziam trabalhos mais leves (como aspirar um dos instrumentos para enovelar o algodão) e os homens os que exigiam mais força (como puxar as prensas dos teares). Todos ficavam surdos, com os pulmões cheios de poeira, sem um braço ou perna cortados pela máquina, mas tudo em nome da produção, sem direitos trabalhistas.
O quarto prédio foi outro genial. Talvez não tanto quanto o anterior porque muita coisa que eu vi lá eu já conhecia ou sabia como funcionava. É o prédio da Ciência. Manchester virou uma cidade riquíssima, atraindo gente e negócios, e consequentemente cultura e conhecimento. Professores e cientistas de várias áreas vieram para a cidade para fazer seus estudos, pois lá havia dinheiro para montar uma boa estrutura e equipamentos. A maioria foi trabalhar na Universidade de Manchester, que virou uma das mais renomadas do mundo, mantendo seu prestígio até hoje (foi de lá que saiu o Nobel de Física desse ano, a descoberta do grafeno). Destaco três cientistas muito bem retratados lá:
- Joule (lê-se Jú, ou então o Teng te morde!) foi um físico que descobriu que o calor é uma forma de energia, não um fluido conhecido como calórico. Essa descoberta só foi possível devido à criação e construção de equipamentos precisos de medição de temperatura, que sem o dinheiro gerado por Manchester não seria possível. Essa descoberta levou em última análise à Primeira Lei da Termodinâmica, a lei da conservação da energia. Sem essa Lei a ciência como conhecemos hoje simplesmente não existiria.
- Dalton foi um inglês especializado em não ser especialista em nada. Era um cientista completo, por assim dizer. Sabe o daltonismo, síndrome de pessoas que não distinguem as cores? Foi Dalton quem descobriu (ele próprio era daltônico). Sabe a chuva? Foi ele que explicou que ela advém de uma mudança de temperatura, não de pressão atmosférica. Mas suas mais famosas pesquisas foram no campo da Física e da Química. Foi ele quem disse que a matéria é constituída de átomos, bolinhas indivisíveis que compõe tudo que existe (antigamente pensava-se que a matéria poderia ser dividida quantas vezes se quisesse). Isso foi uma descoberta absolutamente brilhante e que revolucionou os estudos em Química. Deu origem aos conceitos de elemento químico, massa atômica, reação química. Além disso, algumas das mais importantes leis que governam o comportamento dos gases foram elaboradas por Dalton. E os equipamentos e notas de laboratório de Dalton lá expostos no museu. Pode parecer tosco, mas juro que arrepiei. Ah, com tudo isso ele nunca teve tempo para se casar...
- Rutherford foi o cara que basicamente disse que Dalton estava errado. Seus estudos vieram quase 100 anos depois dos de Dalton, portanto equipamentos e conhecimentos disponíveis foram muito superiores aos disponíveis quando Dalton propôs a teoria atômica. Na verdade, muito do que Dalton propôs estava certo, mas suas afirmações sobre o átomo ser uma esfera neutra, rígida e indivisível estavam erradas. Mas como que alguém conseguiu provar isso se até hoje não é possível ver como o átomo é por dentro? Em função de pesquisas paralelas de gente como Maxwell e Einstein sobre estrutura da radiação e da luz, Rutherford fez um testezinho bacana passando um feixe de partículas alfa (de carga positiva) por uma chapa fininha de ouro, ele verificou que o feixe se desviava ou era rebatido quando batia na chapa de ouro. Ora pois, se o átomo é indivisível e não tem carga, como isso é possível? Isso o levou à formulação do modelo atômico de Rutherford (que até hoje é o mais conhecido popularmente), com um núcleo pequenininho de partículas positivas (prótons) rodeado por elétrons ainda menores orbitando loucamente ao redor do núcleo e cheio de espaço vazio. Esse modelo foi outro passo gigantesco para a verdadeira compreensão de como é matéria é feita. E imagine eu, químico que sou, diante da famosa chapa de ouro de Rutherford. Fiquei na sala dele quase meia hora (e quase sozinho).
Enfim, acho que deu para vcs terem uma boa ideia do porquê Manchester se tornou o centro de produção de bens e conhecimento que transformaram o mundo para sempre, para o padrão de vida que hoje vivemos.
Classe dispensada!
domingo, 24 de outubro de 2010
Mea Culpa
Quem conversou comigo nessas últimas semanas talvez tenha ouvido eu falar mal dos japoneses que moram nos outros quartos aqui na minha casa. Essa é a chamada fase de aversão cultural a tudo o que é estrangeiro, típica de quem vem morar em outro país. Mas no meu caso tudo foi concentrado nos japoneses, não nos ingleses. Reclamei que todos os meus vizinhos de andar são de lá, parecia até que eu moro em Tóquio. Falei que eles só se falavam entre eles e não se socializavam. Vi que eles se vestem das maneiras mais bizarras, gritam altíssimo e são fissurados em gadgets tecnológicos. Reclamei da sujeirada que eles faziam no corredor, deixando o lixo para fora e sujando o hall de entrada. Vi pessoalmente duas meninas carregando seus lixinhos (com aquele ar de nojinho) para a sala onde há um cesto e simplemente jogando o lixo no chão, não se dando ao imenso trabalho de colocá-lo na lixeira.
Enfim, difamei os japoneses para quem quisesse ouvir.
Daí alguns alguns eventos aconteceram nesta semana:
a) Na quarta-feira tivemos uma reunião com os moradores dos 45 quartos aqui da moradia estudantil. Metade era oriental. E a metade fica juntinha, num grupinho à parte. De praxe, os procedimentos contra incêndio e as regras gerais da casa foram dados, mas alguns deles nem se deram ao trabalho de parar de falar aquele código que eles falam entre eles para ouvir as instruções.
b) Na sexta-feira vi novamente uns saquinhos plásticos cheios de lixo do lado de fora do quarto da japonesinha maluca que não fala, só grita. E já não foi a primeira, segunda ou terceira vez que vi isso. E isso é proibido, dito inclusive na reunião de quarta-feira. Além de ser uma porquice, tem um lugar dentro do quarto onde as pessoas podem deixar o lixo. Pensei duas vezes em furar o saquinho e espalhar o lixo na porta... mas me contive e segui para o meu quarto.
c) Naquela mesma noite, às 2 da madrugada, tocou o alarme de incêndio. Pra quem nunca ouviu, é um barulho do cacete, que multiplicado pelo número de apartamentos que há na casa torna-se um som ensurdecedor. E como o Thiago bem sabe por experiência própria, vc tem que sair imediatamente do prédio. Bom, além de estar sonolento ao cubo, eu estava só de pijama no calorzinho do meu quarto. Peguei um casaco e saí pela saída de incêndio. Em 30 segundos saí do calor do meu quarto para um frio de 4 graus do lado de fora. E de bermuda e sem meia. E chovendo, claro... Lá fora estavam todos do mesmo modo, umas meninas de camisola e uns rapazes de camiseta (pelo menos de casaco eu estava!). Nessa hora dei graças a Deus de não ter espalhado o lixo no chão, pois atrapalharia toda a fuga do incêndio... ficamos 10-15 minutos do lado de fora até o alarme parar. Ninguém sabia o que tinha acionado o alarme.
d) Hoje descobri que o que acionou o alarme foi a fumaça que veio do quarto de um dos japoneses que esqueceu a panela no fogo e foi tomar banho...
e) E descobri também que não há sequer NENHUM japonês morando aqui. São todos chineses.
Assim, faço aqui um mea culpa com a nação japonesa. Meu estereótipo de japonês se encaixava direitinho com o que eu tinha visto aqui, de seres introspectivos com roupas, cabelo e aparência bizarras, e que são viciados em celulares, ipads, ipods etc. Se fosse só isso tudo bem, mas daí juntei com a porquice que eu vi e pronto, começou meu ódio por eles. E ainda por cima os chineses que eu tinha conhecido aqui até então eram pessoas bem simples (fazia sentido para mim, pois era compatível com a vida deles lá na China) e bem simpáticas, inclusive um casal me convidando para jantar na casa deles um dia. Enfim, tudo apontava para que o crime tivesse sido cometido pelo japonês com o castiçal na biblioteca...
Portanto, formalmente peço desculpas ao Japão.
Em compensaçãpo, F*** Y** China e seu maldito crescimento econômico que produz jovens como mentalidade tão pequena, sem senso de vida em sociedade e que ainda nos fazem sair na rua às 2 da manhã!!!
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
A crise econômica
Atenção, este post é provavelmente o mais BORING que eu já postei aqui. Portanto eu aviso que se vc não gosta de economia ou quer aproveitar o seu tempo lendo algo mais produtivo, volte em breve e leia o post seguinte que provavelmente não será um ensaio econômico amador como este. Mas eu me empolguei e deu vontade de escrever sobre um assunto que me vem enchendo a cabeça desde que cheguei aqui.
Hoje foi um dia que mudará o futuro do Reino Unido pelos próximos anos. Hoje à tarde o governo britânico divulgou a cartilha de cortes de despesas para tentar conter a crise econômica que atingiu a economia deles a fundo. Não vi a notícia nos jornais brasileiros ainda, mas em todo caso vou tentar explicar o que está acontecendo aqui de um modo indolor para quem se interessar pelo assunto.
- Crise, que crise? O Brasil vai muito bem obrigado - A crise econômica de 2008-2010, como vcs devem se lembrar (ou não), começou num brilhante dia de 2008 quando um tal banco chamado Lehman-Brothers nos EUA faliu. E isso acabou gerando um efeito cascata que afetou em cheio não só os EUA como todo o mundo. O Brasil pegou uma marolinha segundo nosso estimado presidente, e diferentemente do resto do mundo não foi tão afetado pela crise (não vou entrar no mérito se isso foi sorte, mérito do Lula, mérito do FHC etc.).
- Ah, lembrei dessa tal "crise". Mas como ela começou? E afinal o que é essa crise? - Para conseguir o American Dream, um cidadão americano típico, desses caricatos de filmes e séries de TV, tem que ter uma casa com jardim e com garagem para ter de onde tirar seu carro para lavar aos sábados. Para conseguir esta casa, o cidadão norte-americano pede ajuda a um banco. Qual banco escolher? Ora, aquele que dá mais prazo para pagar a dívida, ora pois. E um deles era o Lehman-Brothers, que dessa forma acabou conquistando milhões de clientes. Espertos como eles só, os banqueiros aproveitaram a dependência dos compradores de casas e cobraram altos juros sobre o valor enquanto os anos iam passando. Os americanos iam emprestando mais dinheiro e melhorando ainda mais sua casa, deixando-a mais bonitinha e valorizada como garantia para uma eventual hipoteca. E os bancos também ficavam felizes, pois estavam emprestando dinheiro e lucrariam muito quando os clientes pagassem os empréstimos mais os juros de volta. Então, os bancos começaram a vender seus títulos de crédito (esse dinheiro hipotético que os clientes deviam) para outros bancos e outros clientes. Era um negócio muito bom este, mas algum fofoqueiro começou a espalhar que os valores das casas estavam despecando e isto virou um grande boato. Todo mundo acreditou. A casa que valia 200 dólares e depois passou para 300 milhões, teve seu preço reduzido para 30 dólares. Muita gente já tinha financiado mansões e todos caíram do cavalo. Os estadunidenses aí não conseguiram pagar as parcelas do empréstimo aos bancos. E o banco não conseguia ter seu dinheiro de volta. E os clientes e os outros bancos que compraram os créditos fantasma viram-se sem dinheiro. Daí um banco faliu, o outro em seguida, o outro depois, cidadãos venderam suas casas a preço de banana e começaram a viver em trailers etc. etc. etc. Em resumo, crise econômica mundial.
- OK, ok, eu sabia o que era a crise. Mas como ela afetou tanto o Reino Unido? - Quanto mais rico o país, mais ele é dependente dessa bolha econômica especulativa do mercado de ações, no caso o mercado imobiliário. Imaginem quantos bancos ingleses não estavam metidos em negócios com o Lehman-Brothers e os outros bancos que faliram depois. Então os bancos ingleses também perderam muito dinheiro. E quem é o maior cliente dos bancos em qualquer lugar do mundo? Ora pois, é o próprio governo! Ele empresta dinheiro para financiar obras, pagar salários, bancar a educação e a saúde etc. O dinheiro dos impostos muitas vezes não dá para cobrir tudo. Isso é a chamada dívida pública. E como os bancos ingleses perderam muito dinheiro, eles o querem de volta. E os devedores que tentem pagar. Em outras palavras, o governo britânico tem que pagar a sua própria dívida, a dívida pública. Com que dinheiro? Com o dinheiro que o povo paga em impostos, principalmente. Mas para pagar todos os "14 meses de aluguel", o governo tem que parar de gastar tanto dinheiro. E daí vem os cortes.
- Ufa, finalmente vc chegou onde queria. Que cortes foram esses? - O governo do Reino Unido anunciou nesta quarta-feira o maior pacote de cortes de gastos públicos do país desde a Segunda Guerra. Os cortes incluem cortes em benefícios sociais, o enxugamento na segurança pública e até no orçamento de Defesa. Serão cortados em média 19% dos orçamentos dos departamentos do governo. Os cortes devem provocar o fechamento de quase 500 mil postos de trabalho no serviço público até 2015. Nos próximos quatro anos, os cortes de gastos do governo britânico devem chegar a 81 bilhões de libras (cerca de R$ 214 bilhões). Também devem ser elevados impostos para aumentar a arrecadação em 29 bilhões de libras (cerca de R$ 77 bilhões). No caso dos estudantes, as tais Tuition Fees (que para mim seria de 14000 libras ao ano para estudar aqui em Bristol) vão aumentar em média 20-30%. A idade para aposentadoria também vai aumentar. Apesar disso, saúde e educação se mantém sem cortes. Em resumo, é corte PRA CACETE.
Bom, aproveitem os bons ares do crescimento econômico. Aqui o negócio está bravo. E vai ficar MUITO pior em breve quando as greves e protestos começarem. Podem esperar e conferir no Jornal Nacional nos próximos dias.
Como diria o Seu Creysson, eu agarântio.
domingo, 17 de outubro de 2010
Viajando pelas Terras Médias - Parte 2
Continuando o pequeno conto de Tolkien, lá estava eu em Dárbi (só pra reforçar, viu Galvão), pronto para ir ao jogo. Durante minhas andanças pelo calçadão, e foram muitas, só vi dois brasileiros e quatro ucranianos. O clima da cidade não transparecia em nada que haveria um jogo por ali, ainda mais um jogo da seleção brasileira. Em compensação eu vi muito mais gente pobre na rua do que eu tinha visto em todas as outras cidades que fui por aqui. Suponho que a crise econômica pesada que eles estão vivendo aqui tenha afetado bastante a indústria automobilística local (fábricas da Toyota e Ford), causando um desemprego acima da média no país. E que povinho feio viu, mil vezes as pessoas de Bristol...
Enfim, depois de passear no shopping e verificar que em Derby o preço das coisas é bem maior do que é aqui em Bristol (não sei o porquê), encaminhei-me para o jogo. Usando meu mapinha no celular, fui me guiando pelas ruas da cidade. E o estádio ficava longe do centro, mais de 2 km de distância. Enquando andava, pensava que nunca mais eu chamaria Derby de pequena... O estádio fica na região das fábricas da cidade, portanto pude ver onde boa parte da população local trabalha. A outra metade dos trabalhadores locais trabalha nas fazendas que ficam no entorno de Derby, e é de lá que vem a maioria dos ucranianos que moram na cidade.
Depois de uma boa andança solitária pelo viaduto único de Derby, pude avistar o estádio. Ele se chama Pride Park e pertence ao Derby County, clube da cidade que já foi campeão inglês duas vezes na década de 70. E lá chegando, ouvi pela primeira vez em mais de 2 meses um som familiar...

Foi a primeira vez também que encontrei um monte de brasileiros juntos. A maior parte das pessoas era de Londres ou das cidades próximas nas Terras Médias. Vi torcedor do Goiás, Avaí, Fluminense, Botafogo, Vasco, São Paulo, Palmeiras e Corinthians, mas falei mesmo só com um do Vasco e um do Corinthians, que aliás tinha um cartaz bem interessante...

Os ucranianos que lá chegavam pareciam todos "calibrados" com vodka. Cantando coisas como "Ina, ina, ina, Ukrayina" e outras que não me atrevo a tentar transcrever, eles chegavam fazendo a festa e cantando em coro. E fora que alguns deles estavam sem camiseta num frio de 7 graus (fora a sensação térmica de não sei quantos graus). Os brasileiros cheios de casaco e os ucranianos sem camisa... Alguns brasileiros quiseram provar que eram tão "machos" quanto os ucranianos e resolveram tirar a camiseta também. Não resistiram mais de 5 minutos uhahuahuauha Foi muito interessante ver essa guerrinha entre as torcidas atrás de um dos gols.

Como vocês podem ver, o estádio não estava cheio. Estavam lá apenas 13.088 pessoas, num estádio onde cabem 33 mil. Pode ser o frio, ou o dia e horário impróprios (segunda à noite), ou ainda a seleção brasileira sem os craques conhecidos deles, mas acho que o principal mesmo é que o povo não tem muito dinheiro para gastar, principalmente em cidades do interior. Bom, eu não estava ligando mesmo para nada disso, eu queria mesmo era ver o jogo. Nunca tinha ido ver um jogo do Brasil antes. E quem diria que meu primeiro seria em Derby... Mas, infelizmente, logo na entrada do estádio me deparei com a seguinte placa:

Pois é, tive que deixar meu kit de dardos e meu rádio antigo de mesa do lado de fora. Paciência... Passada a decepção, entrei no estádio. Diferentemente do Brasil, o estádio é muito bonito, limpo, conservado e bem organizado.
E o melhor é que pude ficar pertinho dos jogadores do Brasil enquanto eles faziam o treinamento físico!!! Foram mais de 20 minutos de aquecimento e alongamento. Muito legal.


E os jogadores acenavam ou davam umas risadinhas quando ouviam umas piadas (tipo "André, volta pro Timão", "Robinho lindo" e "Cadê o Kaká?"), mas eles não podiam fazer mais que isso porque senão o preparador físico dava bronca.
Passado o aquecimento, fui para meu lugar. E lá estava até cheio, pois era na lateral do campo. O problema é que estava cheio de ingleses... Ou seja, nada de emoção exacerbada, só gritos de Ohhh, Uhhh, Ahhh e aplausos. Torciam para o Brasil e para a Ucrânia (à lá CK, descendente de ucranianos). Os ingleses até aplaudiram até a entrada do juiz!!!!! Que que é isso!!!!!
Dois ingleses que vieram juntos sentaram na minha frente e não trocaram uma única palavra durante o jogo todo. E eu não estou exagerando!!! Eu por outro lado estava torcendo à brasileira, cantando junto com os brazucas, xingando quando podia e pulando adoidado nos gols. Como levei minha bandeira do Brasil gigante, ficava agitando toda hora que tinha lance emocionante. O menininho do meu lado ficou maravilhado ao me ver comemorando um dos gols com tanta emoção (ou seja, qualquer coisa maior que uns aplausos). E também na hora do hino, pois eu era o único brasileiro nas proximidades e portanto a única voz ouvida por ali (sem contar que eu cantei os dois hinos e cantei o refrão inicial "Espera o Brasil que todos cumprais com vosso dever...", para estranheza de um cara na minha frente...). Acho que o menininho se lembrará de mim se vier a gostar de futebol quando crescer. E a empolgação da "ola" brasileira e dos trenzinhos sem camisa dos ucranianos contrastava fortemente com a completa serenidade (pra não dizer chatice) dos ingleses.

Resumindo, foi muito legal. Ah, um detalhe, teve jogo também. 2x0 Brasil com gols de Daniel Alves e Alexandre Pato.
Mas isso é só um detalhe.
Enfim, depois de passear no shopping e verificar que em Derby o preço das coisas é bem maior do que é aqui em Bristol (não sei o porquê), encaminhei-me para o jogo. Usando meu mapinha no celular, fui me guiando pelas ruas da cidade. E o estádio ficava longe do centro, mais de 2 km de distância. Enquando andava, pensava que nunca mais eu chamaria Derby de pequena... O estádio fica na região das fábricas da cidade, portanto pude ver onde boa parte da população local trabalha. A outra metade dos trabalhadores locais trabalha nas fazendas que ficam no entorno de Derby, e é de lá que vem a maioria dos ucranianos que moram na cidade.
Depois de uma boa andança solitária pelo viaduto único de Derby, pude avistar o estádio. Ele se chama Pride Park e pertence ao Derby County, clube da cidade que já foi campeão inglês duas vezes na década de 70. E lá chegando, ouvi pela primeira vez em mais de 2 meses um som familiar...
Foi a primeira vez também que encontrei um monte de brasileiros juntos. A maior parte das pessoas era de Londres ou das cidades próximas nas Terras Médias. Vi torcedor do Goiás, Avaí, Fluminense, Botafogo, Vasco, São Paulo, Palmeiras e Corinthians, mas falei mesmo só com um do Vasco e um do Corinthians, que aliás tinha um cartaz bem interessante...
Os ucranianos que lá chegavam pareciam todos "calibrados" com vodka. Cantando coisas como "Ina, ina, ina, Ukrayina" e outras que não me atrevo a tentar transcrever, eles chegavam fazendo a festa e cantando em coro. E fora que alguns deles estavam sem camiseta num frio de 7 graus (fora a sensação térmica de não sei quantos graus). Os brasileiros cheios de casaco e os ucranianos sem camisa... Alguns brasileiros quiseram provar que eram tão "machos" quanto os ucranianos e resolveram tirar a camiseta também. Não resistiram mais de 5 minutos uhahuahuauha Foi muito interessante ver essa guerrinha entre as torcidas atrás de um dos gols.
Como vocês podem ver, o estádio não estava cheio. Estavam lá apenas 13.088 pessoas, num estádio onde cabem 33 mil. Pode ser o frio, ou o dia e horário impróprios (segunda à noite), ou ainda a seleção brasileira sem os craques conhecidos deles, mas acho que o principal mesmo é que o povo não tem muito dinheiro para gastar, principalmente em cidades do interior. Bom, eu não estava ligando mesmo para nada disso, eu queria mesmo era ver o jogo. Nunca tinha ido ver um jogo do Brasil antes. E quem diria que meu primeiro seria em Derby... Mas, infelizmente, logo na entrada do estádio me deparei com a seguinte placa:
Pois é, tive que deixar meu kit de dardos e meu rádio antigo de mesa do lado de fora. Paciência... Passada a decepção, entrei no estádio. Diferentemente do Brasil, o estádio é muito bonito, limpo, conservado e bem organizado.
E o melhor é que pude ficar pertinho dos jogadores do Brasil enquanto eles faziam o treinamento físico!!! Foram mais de 20 minutos de aquecimento e alongamento. Muito legal.
E os jogadores acenavam ou davam umas risadinhas quando ouviam umas piadas (tipo "André, volta pro Timão", "Robinho lindo" e "Cadê o Kaká?"), mas eles não podiam fazer mais que isso porque senão o preparador físico dava bronca.
Passado o aquecimento, fui para meu lugar. E lá estava até cheio, pois era na lateral do campo. O problema é que estava cheio de ingleses... Ou seja, nada de emoção exacerbada, só gritos de Ohhh, Uhhh, Ahhh e aplausos. Torciam para o Brasil e para a Ucrânia (à lá CK, descendente de ucranianos). Os ingleses até aplaudiram até a entrada do juiz!!!!! Que que é isso!!!!!
Dois ingleses que vieram juntos sentaram na minha frente e não trocaram uma única palavra durante o jogo todo. E eu não estou exagerando!!! Eu por outro lado estava torcendo à brasileira, cantando junto com os brazucas, xingando quando podia e pulando adoidado nos gols. Como levei minha bandeira do Brasil gigante, ficava agitando toda hora que tinha lance emocionante. O menininho do meu lado ficou maravilhado ao me ver comemorando um dos gols com tanta emoção (ou seja, qualquer coisa maior que uns aplausos). E também na hora do hino, pois eu era o único brasileiro nas proximidades e portanto a única voz ouvida por ali (sem contar que eu cantei os dois hinos e cantei o refrão inicial "Espera o Brasil que todos cumprais com vosso dever...", para estranheza de um cara na minha frente...). Acho que o menininho se lembrará de mim se vier a gostar de futebol quando crescer. E a empolgação da "ola" brasileira e dos trenzinhos sem camisa dos ucranianos contrastava fortemente com a completa serenidade (pra não dizer chatice) dos ingleses.
Resumindo, foi muito legal. Ah, um detalhe, teve jogo também. 2x0 Brasil com gols de Daniel Alves e Alexandre Pato.
Mas isso é só um detalhe.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Viajando pelas Terras Médias - Parte 1

Engraçado como até o nome dos lugares aqui são mais chiques. Segunda-feira, por exemplo, atravessei o país em direção às chamadas Midlands, ou Terras Médias, a região do centro da Inglaterra. Parece até que eu estou na Idade Média falando termos como esse. Mais precisamente, em Derby. E não se fala Dérbi como vocês energúmenos de nação subdesenvolvida pronunciam. Aqui os chiques ingleses falam Dárbi. (nem precisa dizer que eu já errei pelo menos umas 10 vezes o nome da cidade...)
Enfim, por que raios eu não estava trabalhando em plena segundona? Aqui 12/10 não é feriado, portanto nada de emenda na segunda ou coisa parecida. A questão era que segunda-feira a seleção brasileira de futebol jogou. E não foi no Brasil. Foi aqui na Inglaterra. E não foi em Londres. Foi em Derby. E não foi contra a Inglaterra. Foi contra a Ucrânia...
Bom, se vocês não entendem a lógica do Brasil vir até um outro país jogar contra uma terceira seleção e ainda por cima numa cidade pequena, vou tentar explicar a vocês. Se vc não se interessa pode pular o parágrafo que não prejudicará o resto da história. A CBF controla a seleção brasileira de futebol. Quanto mais dinheiro ela ganhar com a seleção, melhor. Antes de zelar pelo bom futebol ou pela qualidade do espetáculo, eles zelam pelos bolsos deles. Tanto que terceirizam o direito de negociar os jogos do Brasil para uma empresa suíça, que escolhe quando e onde o Brasil joga. E sempre escolhe onde pagam mais. Por isso quase nunca o Brasil joga no Brasil. E por isso sempre tem jogo no Oriente Médio, por exemplo. Ou na Inglaterra. Deve ter empresário lucrando muito há muito tempo com jogo do Brasil aqui na Inglaterra, pois os clubes aqui só contratam brasileiros se eles jogaram pelo menos uma vez pela seleção. E os clubes aqui tem grana pra caramba pra gastar, então não tem oportunidade melhor para ver novos jogadores em ação, pronto para serem vendidos dos clubes brasileiros para clubes ingleses. Mas por que não Londres? Porque a Inglaterra jogou em Wembley ontem pelas Eliminatórias da Euro-2012, portanto o estádio favorito para a seleção jogar estava reservado. Daí tinham que escolher outra cidade. Escolheram Derby, pois lá tem muita empresa automobilística e muita grana na área tecnológica. Escolhida a cidade, escolheram o time para jogar contra. Escolheram a Ucrânia. E por quê? Porque todas as outras seleções europeias estão ocupadas jogando as Eliminatórias da Euro-2012, mas a Ucrânia não pois já está classificada por ser o país sede. A desculpa oficial é que o Brasil queria prestigiar o interior da Inglaterra jogando contra uma seleção europeia forte numa cidade com grande colônia ucraniana (sem mencionar que são todos fazendeiros e nem tem dinheiro para ir ao estádio).
Enfim, aí o Brasil jogou contra a Ucrânia em Derby, e eu fui. Além de eu estar em abstinência de ver futebol, pois ver o Bristol City não conta, era o Brasil vindo até o país onde eu estou. Nunca tinha visto um jogo do Brasil no estádio, portanto era uma oportunidade única para mim também. E de tabela conhecer uma cidade relativamente pequena para a qual eu nunca iria. E, além disso, a ciência pode esperar um dia a mais por mim hehhehehe
Isto posto, comprei o ingresso pela internet, comprei a passagem de ônibus e, como não havia ônibus ou trem desde Derby até Bristol de noite, tive que reservar um quarto de hotel para passar a noite. Depois de 2 horas num ótimo ônibus numa ótima estrada e com uma irritante pontualidade, cheguei a Birmingham. Birmingham (outro nome chique pra burro) é a segunda maior cidade da Inglaterra (atrás de Londres), coração das Terras Médias da Inglaterra,, cidade industrial e de negócios, muito como São Paulo. E por isso ninguém se interessa em visitar Birmingham, como ninguém se interessa em visitar São Paulo... Enfim, depois de uma escala lá, mais 1 hora de ônibus rumo ao norte até a cidade de Derby.
Cheguei na hora do almoço. A estação era perto do centro, e lá tinha um i. Peguei um mapa da cidade e sentei num banco em frente para folheá-lo. Logo vi que a principal atração da cidade era a Cathedral Square, ou quarteirão da catedral. E era exatamente onde eu estava... logo percebi que seria uma longa tarde até o jogo...
Mas não foi tão ruim assim. A cidade é pequena, bem menor que Bristol. Mas o calçadão central até que é legal, com umas lojas e tal. E tem o shopping. A segunda maior atração da cidade. Bem o que eu gosto de fazer, ir a uma cidade para fazer compras e olhar vitrines! Ironias à parte, depois do banho de loja (!), visitei a Catedral de Derby, que é bem velha (do ano de 943), e o Museu de Derby, que tem umas coisass bem velhas que contam a história da região desde a época romana até os dias atuais. Lá tinha uma área sobre geologia que realmente me impressionou pela capacidade em tornar um assunto potencialmente tão boring (eu não acho) em algo bem legal. E tem também muitas pinturas de Joseph Wright, um pintor inglês muito famoso aqui e que pintou muita coisa relacionada à Revolução Industrial. O cara é o orgulho de Derby, e com razão, pois as pinturas dele são muito animais (não podia tirar foto dentro do museu, mas eu postei uma réplica de um quadro famoso dele - procure no google pois vale à pena, especialmente para nós que pouco vemos pintura relacionada à ciência, ainda mais do século XVIII). E o melhor: pude apreciá-las na mais absoluta tranquilidade (para não dizer solidão) de um museu vazio.
Depois do jogo (que será a Parte 2 da história), peguei um ônibus até o centro da cidade. Lá chegando, 21h45, percorri o calçadão (que à essa altura já conhecia de cor...) em busca de um lugar para jantar. Ledo engano, tudo fechado. E os supermercados? Fechados. E o shopping Wesfield, com certeza a praça de alimentação da segunda maior atração da cidade estaria aberta. Rá, otário, fechada. Resignado, e de certo modo com medo pela solidão daquele calçadão, fui para o hotel. Cheguei lá ainda antes das 22h e logo me dirigi ao restaurante. Mas qual não foi minha surpresa ao encontrá-lo também fechado. Será que as pessoas em Derby não jantam???
Depois de dormir de estômago vazio, fui obrigado a tirar o atraso no café da manhã do dia seguinte. Mas digo para vcs que tirar o atraso com café da manhã inglês não é tarefa fácil. Encarei aqueles pratos quentes que eles comem, incluindo o bizarro feijão assado com molho de tomate, o bacon, a linguiça preta e os cogumelos. Só passei o omelete pq aí seria o cúmulo da fome pra mim. Sobrevivi ao massacre estomacal e me dirigi ao check-out do hotel 1 hora antes de pegar outro ônibus. Que otário (de novo). O check-out durou menos de 30 segundos e eu já estava fora do hotel às oito da manhã naquele frio desgraçado. E pior: de novo no calçadão!!! Consternado, fiquei por lá para ver a movimentação da cidade pela manhã até a hora que me enchi e fui ler um jornal na rodoviária da cidade até pegar meus ônibus e voltar ao pacífico Countryside de Bristol.
E chega de calçadão!!!
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