
Para aqueles fulanos que por algum acaso vão ou pensam em ir para a Inglaterra realizar seu Doutorado Sanduíche, relato aqui a minha experiência a respeito.
Primeiro: se você vai passar mais de 180 dias lá, você precisa de um visto. O Reino Unido delega a função de emitir vistos para uma empresa terceirizada, a WorldBridge, na maior parte dos países, inclusive o Brasil. Aqui, a WorldBridge mantém um escritório central no Rio de Janeiro, onde todos os pedidos são processados, e dois postos avançados para coleta de documentos, fotos e impressões digitais, um em São Paulo e outro em Brasília.
Na hora de abrir o processo para emissão de visto via internet, há diversos formulários disponíveis dependendo da classificação do candidato. Julguei "Academic Visitor" o mais adequado para o Doutorado Sanduíche, pois essa classificação abarca quem vai passar até um ano realizando pesquisa em instituição acadêmica inglesa, afastado temporariamente de sua instituição de origem. Perfeito, não?
Enfim, fui até o centro da WorldBridge em São Paulo (uma salinha sem vergonha num prédio comercial perto da Av. Paulista) com meu formulário de Academic Visitor (com suas 180 questões respondidas), a taxa de mais ou menos R$ 200 paga, meu passaporte, a carta de aceite de meu orientador na Inglaterra, o contrato e a carta de benefícios assinadas pelo CNPq (agência de fomento brasileira que me paga) e um extrato da minha conta, para provar que poderia me sustentar lá. Depois de tirar aquelas úteis fotos 3,5 x 4,5 cm (não servem nossas reles 3x4) e as impressões digitais e pagar quase R$ 100 para enviar tudo para o RJ (acho que foi com escolta dos soldados da rainha...), saí confiante de que tinha feito tudo direito.
Pobre coitado. Cinco dias depois, uma segunda-feira em que o Brasil ganharia do Chile nas oitavas da Copa, o meu telefone de casa toca. Eu atendo. Com uma calma e clareza iguais às da Ferrari mandando o Massa deixar o Alonso passar, o fulano fala: "Your visa has been DENIED". E para deixar mais claro: "Your entrance to the UK territory has been REFUSED". Sensacional!!!
Em seguida o cara me explicou o que houve: eles julgaram que eu deveria ter aplicado para Student, não Academic Visitor, pois sou um estudante de doutorado. Pediram que eu pagasse R$ 558 reais em cheque administrativo e o mandasse junto do formulário de Student para o endereço no RJ. Eu anoto tudo e desligo. Depois olho o formulário e choro: tenho que preencher o curso ao qual estou matriculado e o número de matrícula. Mas um aluno de Doutorado Sanduíche não faz curso nenhum!!! Não assistiremos aulas nem cursaremos disciplinas!!! Enfim, perguntei para meu orientador no exterior se eu poderia obter um número de matrícula. Ele disse que sim, mas só se eu pagasse a taxa de matrícula, que no meu caso na Universidade de Bristol seria de quase R$ 40000...
Isso, vc contou certo, quarenta mil reais! Mesmo vendendo rim e parte do fígado como o Thiago recomendou, não daria. Aí foi tenso. O Brasil goleando e eu chorando. Achei que tivesse acabado. Já tinha quase resolvido minha casa (história que merece outro post no futuro) e estava com toda minha cabeça mobilizada para isso há mais de um mês. Passado o pânico inicial, procurei telefones e e-mails com quem pudesse falar, mas eles não tem contato. Mandei uma reclamação via site da WorldBridge. E aí bolei meu plano: mandar cartas minhas, de meu orientador aqui, do meu orientador lá e o edital do CNPq para o RJ, em vez daquele cheque e formulário malucos. Nessas cartas todos argumentamos que eu não era estudante, era sim um visitante acadêmico.
Aí esperei. Esperei numa tensão elevada. E aí o Brasil encarou a Holanda nas quartas da Copa. E eu recebo um e-mail no mesmo dia: Your visa has been... ISSUED (emitido)!!! Festa aqui em casa!!! O Brasil chorando e eu pulando de alegria!!! Acho que as cartas foram fundamentais para eles mudarem de ideia. Mais tarde naquela semana chegou meu passaporte em casa com o visto bonitinho lá. Uma semana e meia depois de abrir o processo.
Em resumo: os ingleses são rápidos, mesmo quando há problemas, mas cubra todas as possibilidades. Mande tudo que você puder para justificar sua renda e sua condição na hora de aplicar. Não admita que eles sua classificação é inquestionável. Pois essa é a outra lição: se os ingleses puderem contestar alguma coisa, eles o farão. Portanto, cuide-se para que não sobrem brechas, pois mesmo quando você pensa que elas não existem, os ingleses as acharão.
PS: além dos comentários deste post, confira
aqui o segundo post sobre o tema, feito pela Daisy.